O uso de protocolos de internet na telefonia pode mudar o jeito como as empresas trabalham e oferecem serviços.
Voz sobre IP. Telefonia IP. Duas tecnologias que migram o mercado de telefonia para as redes de internet. Duas tecnologias que já foram e ainda são tema de capas de revistas de informática. Quem já é usuário confirma as prometidas economias na conta telefônica. Já analistas de mercado apontam que mesmo com a possível lucratividade, o momento é de reflexão. A falta de regulamentação e a entrada maciça de operadoras telefônicas são itens que devem ser considerados por executivos que pensam em sugerir a tecnologia na mesa de reunião como forma de poupar um dinheiro no final do mês. Até mesmo por que o mercado de fornecedores ainda não definiu a sua forma.
A estréia de produtos do gênero das operadoras, como a Primeira Escolha e os novos serviços da GVT (www.gvt.com.br) em telefonia IP, mexeu com o mercado de telecomunicações. Acontece que a contratação de uma integradora para a produção de uma arquitetura de voz sobre IP dentro da rede uma empresa de médio e grande porte começou a ser questionável. As telefônicas comprometeram a possível lucratividade na compra de diversos equipamentos, como roteadores mais robustos, para o desenvolvimento de uma solução própria. Afinal de contas, empresas, como a Embratel, oferecem sistemas que não necessitam de um mínimo investimento para as empresas. Basta contratar os seus planos de telefonia IP.
Segundo uma pesquisa da consultoria Gartner (www.gartner.com) , a briga entre as soluções próprias de integradoras e os produtos das operadoras deve esquentar. O estudo “VoIP Forcing Changes in Telecom Market and Regulation” aponta que o usuário deve levar em consideração principalmente a qualidade do serviço. A Anatel, como boa parte doa órgãos reguladores do mundo, ainda não criou nenhum tipo de regulamentação para a tecnologia.
Receita própria
Uma empresa pode optar por não depender de uma operadora para criar o seu sistema telefônico pela internet. Decisão que implica compra de equipamentos de rede de preço elevado, como roteadores sofisticados e, geralmente, a contratação de um link de dados mais veloz. E mais, a companhia usuária precisa adaptar o seu PABX para que ele funcione com o hardware da sua LAN e faça chamadas externas.
Facilmente, os investimentos podem ultrapassar os cem mil reais em uma empresa de médio porte. Isso sem contar no aluguel dos links de internet de alta velocidade, que podem ser um ADSL versão empresa.
Quem colocou dinheiro na opção gostou. É o caso da Dacasa Financeira (www.dacasa.com.br), financeira especializada em produtos como CDC (Credito Direto ao Consumidor) e CP (Credito Pessoal). A empresa começou a investir em telefonia IP em novembro de 2002. Segundo Frederico Gaede Coelho, gerente de tecnologia, a companhia passava na época por um período de expansão. “Estávamos criando nossa sede e pensávamos apenas na qualidade de atendimento ao cliente. O que temos hoje é uma economia de até 80% em cada ligação telefônica”. Frederico aponta que a economia é gerada principalmente com a eliminação das ligações de longa distancia.
De acordo com o gerente de TI, a companhia agora realiza as suas chamadas – geralmente para venda de produtos de crédito – por meio apenas de pulsos locais. O sistema de telefonia IP transfere as chamadas do call center em Vitória (ES) para a cidade local das filiais e de lá utiliza o sistema telefônico tradicional.
Mesmo com a chamada econômica e a independência da operadora de longa distancia, o sistema também tem falhas. Ele não consegue garantir a qualidade das ligações permanentemente. A final de contas, muitas vezes a telefonia IP é trafegada por meio da estrutura de internet das telefônicas, que muitas vezes pode estar em horário de pico.
Justamente para evitar desconforto para os usuários, órgãos reguladores do setor de comunicação estudam uma regulamentação para o VoIP.
Rivalidade
O mercado de telefonia por IP ainda não tem números específicos para o Brasil. A única certeza é que as operadoras como a Telefônica (www.telefonica.com.br) e GVT, ainda competem com soluções desenvolvidas por integradoras, como a Telsinc (www.telsinc.com.br) e Ziva Tecnologia (www.ziva.com.br). Porém, estudos de consultorias apontam que as telefônicas devem tomar boa parte do mercado, se não todo ele, até 2008.
Em meio a briga entre as duas operadoras de telefonia IP, as operadoras são beneficiadas na maior parte dos casos. As integradoras obrigatoriamente utilizam os links de dados – meios de conexão entre duas pontas – das telefônicas para que uma empresa fale com a sua filial do outro lado do País. Alem disso, não são poucos os casos em que a sua cliente contrate um serviço de comunicação em alta velocidade melhor do que o já existente.
Segundo Luiz Gonzaga Villela, diretor geral da Telefônica Empresas (www.telefonicaempresas.com.br), a competição não deve ser polarizada. Existem outras empresas que devem atuar fortemente no mercado ainda este ano. “Somente nós podemos garantir uma total qualidade do VoIP quando as redes ficarem saturadas e não as integradoras. Só que tem uma coisa, as empresas de DDD e DDI certamente terão planos para competir com a tecnologia de voz pela internet quando ela chegar as massas”.
Por sua vez, as integradoras atestam que a qualidade do VoIP depende unicamente dos seus serviços. As empresas ouvidas pela reportagem afirmam que a Voz sobre IP depende unicamente de duas coisas: a qualidade do link, em que a operadora tem de manter por contrato, e a condição dos equipamentos de rede do cliente.
Mario Leonel Neto, presidente da prestadora de serviços telefônicos de longa distancia em tecnologia VoIP Primeira Escolha (www.ligue24.com.br), afirma que a briga entre as operadoras e integradoras deve ser avaliada por meios de questão dos custos operacionais de cada uma. Segundo ele, empresas de comunicação devem permanecer no mercado, mesmo com os esforços das telefônicas, porque “são mais focadas, tem custos menores e são mais ágeis e flexíveis”.
Existe também uma terceira “facção” que pode entrar na briga. São as empresas de TV a cabo. Elas tem uma rede própria espalhada por boa parte do Pais. Ou seja, podem ofertar serviços de telefonia IP sem depender da infra-estrutura de terceiros. NET e TVA ainda não apresentam produtos específicos para a tecnologia.
Tarifação
A previsão de especialistas é que até mesmo as empresas de comunicação mais conservadoras oferecerão Voz sobre IP entre os seus serviços. Toda essa competição e oferta podem significar perda de receita para as operadoras. Por esse mesmo fato de telefônicas de diversos paises lutam por uma forma de regulamentar uma tarifação para os serviços de VoIP.
Em fevereiro deste ano, a Comissão Federal de Comunicação dos Estados Unidos, a FCC (www.fcc.gov), publicou uma série de parâmetros para a definição da tarifação dos serviços de telefonia IP. A preocupação do órgão á a criação de uma forma de compensar as operadoras pela perda dos interurbanos. A FCC também já lançou uma série de questionamentos quanto á segurança e a privacidade da tecnologia. Afinal de contas, a internet nem sempre é o ambiente mais seguro.
Nada definido na FCC americana. Muito menos no Brasil, em que a Anatel confirma que não pensa em regulamentar a tecnologia. Existe apenas um consenso mundial de que a telefonia que utiliza apenas a rede de internet não deve passar por nenhuma tarifação, uma vez que a rede mundial não tem nenhuma regulamentação.
Sofisticação
De acordo com dados do Gartner, o mercado de VoIP deverá passar por um boom em 2005. o ajuste do mercado só virá em 2008, quando operadoras tiverem seus planos de serviços prontos para o consumidor final. A consultoria afirma que as empresas remanescentes no mercado terão de englobar funções extras nos telefonemas para conseguir manter as suas vendas.
“ No decorrer do final da década, os serviços de VoIP envolverão telefone com vídeo e e-mail por voz”, diz trecho do estudo de Elroy Jopling. “A venda de serviços de voz em separado não existirá mais. Ela será feita em meio a uma suíte de pacotes de entretenimento e comunicação”.
É o já acontece atualmente. Os correntes aparelhos telefônicos IP apresentam uma gama de ferramentas que fogem apenas do tradicional telefone. Geralmente, os produtos tem um visor de cristal liquido que oferece serviços, como leitura de e-mail e acesso a internet.
Próximo Passo
De acordo com um estudo sobre o mercado de telecomunicações do analista Daniel Klein, do Yankee Group (www.yankegroup.com), o próximo passo da telefonia IP é a criação de protocolos de comunicação. Os tais protocolos terão como objetivo trazer uma tecnologia que faça com que os links das operadoras sejam melhor aproveitados. “O objetivo é a criação de protocolos abertos, como o JAIN e o Parlay, que permitem a criação de produtos independentemente do fornecedor do link”.
A criação dessas novas tecnologias de comunicação deve servir principalmente para que as interadoras tirem melhor proveito da rede das operadoras. Um dos projetos mais ambiciosos é o JAIN (www.java.sun.com/products/jain/) criado sobre tutela da Sun microsystems.
O JAIN deve abrir espaço para diferentes redes de voz sobre IP falem entre si. Dessa forma, a rede de telefonia IP de uma empresa poderia conversar com a de uma outra companhia mesmo com soluções de rede totalmente distintas.
Consumo
Uma das principais perguntas é quando o VoIP realmente chegará ao consumidor final. Atualmente, a GVT experimenta a comercialização de telefonia IP entre os seus usuários.
O preço do minuto local é de 0,07 reais em media, mais varia de acordo com o tamanho da franquia, que oscila de 180 a cem mil minutos, de acordo com a necessidade do cliente ao contratar o serviço. A operadora afirma que a economia pode chegar a 70% nas ligações quando o serviço substitui interurbanos e a 90% na substituição do roaming de celular.
Questionadas, outras operadoras não confirmaram a sua previsão de oferta de telefonia IP para o mercado consumidor.
Segundo boa parte dos profissionais de tecnologia ouvida pela reportagem, a contratação ou compra de produtos de telefonia IP deve ser feita com cautela. O retorno muitas vezes pode superar mais de dois anos.
Luiz Ganzaga Villela, diretor-geral da Telefônica Empresas, dá a dica para o calculo para a verificação do retorno do investimento. “Calcule se o volume do investimento não seria maior do que a contratação de pacotes de chamadas de longa distancia com as operadoras. É o que Frederico Gaede Coelho, gerente de tecnologia da Dacasa, confirma. “Nossos investimentos devem ser recuperados somente em três anos. O objetivo da migração para o IP deve ser feita diante de uma precisão de melhoria dos serviços da empresa.A economia vem por tabela”.
Segurança
A convergencia da telefonia em redes IP já traz mais um problema para os seus usuários: segurança. Os ataques de negação de serviço, o famoso DoS, podem derrubar todos os telefonemas de uma empresa. Obviamente, investimentos em produtos de proteção, como firewall e IPS, devem crescer por tabela.
Os próprios fabricantes de equipamentos de comunicação já refazem as suas linhas de produtos para embutir ferramentas de segurança. É o caso da Cisco, que acabou de reformular a sua linha de roteadores. Os lançamentos da fabricante americana já vem com funções de segurança, como criptografia, exclusiva á telefonia.