QUAL É SEU IP?
Até 2015, a telefonia terá sofrido uma revolução e as chamadas de longa distância serão coisa do passado. Falar com o prédio ao lado terá o mesmo custo de um telefonema de São Paulo a Hong Kong. E assim como as simpáticas telefonistas que conectavam parentes distantes se tornaram ícones da primeira metade do século passado, as siglas DDD e DDI se tornarão, dentro de dez anos, expressões tão ultrapassadas quanto “broto” e “beque central”.
A transformação está começando agora e tem o nome de VoIP – sigla de Voz sobre IP (de Internet Protocol ou Protocolo da Internet). Basicamente, o novo sistema de telefonia utiliza a rede mundial de computadores para transmitir voz. Dispensa, portanto, os velhos cabos de cobre da rede telefônica tradicional e põe fim às tarifas diferenciadas de DDD e DDI – o que justifica todo o barulho que vem causando no mercado. “Acredito que, em 2015, a tecnologia VoIP será de uso corrente”, afirma o analista de telecomunicações Juan Fernandez, da consultoria Gartner. O novo sistema, explica ele, ainda depende de uma modernização da rede telefônica residencial e corporativa no mundo todo, o que inclui a aquisição de aparelhos, computadores e softwares. Mesmo assim, o investimento vale a pena. Além de representar uma economia, especialmente para as empresas que precisam se comunicar com diversas filiais nos lugares mais distantes, o VoIP permitirá que novos serviços sejam agregados ao velho bate-papo – como a possibilidade de se trocar imagens e gerenciar softwares por meio de comandos de voz, por exemplo.
VoIP: com ou sem telefonia IP
A transmissão de voz pela internet já vem sendo utilizada há mais de cinco anos, principalmente no mercado corporativo. Para funcionar, a tecnologia não precisa de uma rede totalmente digital. A voz pode ser carregada em forma de dados apenas por trechos determinados da rede. Por exemplo, se o sinal telefônico parte de um aparelho analógico tradicional, pode prosseguir assim até a central da cidade e, ali, ser transformado em dados. Se houver banda larga até a operadora da cidade de destino, será novamente convertido em sinal analógico, e chegará até o receptor pela linha telefônica convencional. Assim, mesmo quem não usa telefonia IP dentro de casa ou do escritório pode ter sua voz carregada via web. Já a telefonia IP exige que os aparelhos tradicionais sejam substituídos por computadores ou telefones especiais – para que a voz transite na forma de dados durante todo o processo. Enquanto os dois tipos de transmissão de voz coexistem nas empresas, as fabricantes oferecem aparelhos de PABX híbridos. Algumas companhias estão optando ainda por acoplar adaptadores aos equipamentos já existentes, mas a alternativa não é vista como a melhor solução. “Adaptar o que já existe é apenas postergar o problema”, declara João Carlos Quitério, da Ziva.
Crescimento rápido – O mercado ainda é embrionário no Brasil, mas a tendência é que cresça numa velocidade cada vez maior. A Siemens, por exemplo, demorou três anos para vender o primeiro milhão de aparelhos IP. Mas o quarto milhão foi vendido em apenas três meses. Os negócios mais atraentes estão no setor corporativo, no qual a telefonia IP já reduz custos – embora demande altos investimentos para ser adotada. Por isso, quase todas as fornecedoras de sistemas de telecom estão criando setores de telefonia IP para atender os clientes desse segmento. As fabricantes de aparelhos também estão agitadas com a novidade e pesquisam soluções mais avançadas, que proporcionem uma qualidade de voz cada vez melhor. Até as que ainda não lançaram aparelhos IP, como a Intelbras, de Santa Catarina, prometem fazê-lo em breve. “É um caminho sem volta. Em alguns anos, esta tecnologia terá um grande domínio”, prevê Altair Silvestri, presidente da Intelbras.
Como a transformação dos sistemas custa dinheiro e ainda há dúvidas sobre o padrão ideal de VoIP, boa parte das empresas que está aderindo ao novo método substitui os aparelhos de forma gradual. É o caso da rede gaúcha de hotéis Intercity. A empresa contratou a GVT para instalar uma linha IP entre os escritórios de Porto Alegre, Florianópolis e São Paulo em dezembro de 2004. Agora, utilizará o serviço para conectar os oito hotéis de sua rede. Pelas linhas IP, as filiais poderão falar à vontade com a matriz, sem pagar nada além de uma taxa mensal – exatamente como acontece com o e-mail. “Nós nos surpreendemos com a qualidade da ligação”, relata Adriano Fortes Nunes, gerente de TI do Intercity. Quando as ligações são feitas para telefones convencionais, é claro, a economia não é tão grande. No caso do Intercity, por enquanto, a redução de custos foi de 22% ao mês. A economia aumentará na medida em que se multiplicarem os usuários da nova tecnologia.

Evento de demonstração da GVT: meta é conquistar 100 mil assinantes para os serviços de VoIP em pouco mais de dois anos |
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Outro exemplo é a Infraero. “Toda a rede dos aeroportos está ligada por VoIP”, conta João Carlos Quitério, diretor de tecnologia da Ziva, a empresa especializada que forneceu a tecnologia à estatal aeroportuária. A mudança começou há dois anos e está sendo feita aos pouquinhos. Na sede da Infraero, a solução ainda é híbrida (isto é, utiliza ora a telefonia convencional, ora a virtual). Há dois anos, porém, a Infraero não adquire nenhum novo telefone tradicional – só IPs. “É raro uma empresa mudar de uma vez para a telefonia de internet”, conclui Quitério. “É mais fácil começar pelas pontas”, recomenda. Ou seja, ir trocando os aparelhos das filiais e, por último, a central telefônica da matriz.
As próprias fabricantes de equipamentos IP não recomendam que os usuários saiam correndo para mudar toda sua estrutura de telecom. Antes, cada organização deve estudar quais são os seus objetivos e necessidades, pesquisar as opções que o mercado oferece e escolher o que é melhor para o seu negócio. “Planeje, planeje e planeje”, recomenda Gisele Boni, gerente de soluções da Avaya, multinacional especializada em softwares e equipamentos de VoIP. O consultor da Gartner, Juan Fernandez, lembra que as empresas não devem se sentir pressionadas a adotar as novas tecnologias – o que geralmente acontece quando os concorrentes começam a implantá-la. Em vez disso, deve-se buscar o VoIP somente quando há convicção de que isso trará benefícios. “É importante fazer uma implementação muito bem estudada”, sugere Fernandez.
Outro exemplo é a Infraero. “Toda a rede dos aeroportos está ligada por VoIP”, conta João Carlos Quitério, diretor de tecnologia da Ziva, a empresa especializada que forneceu a tecnologia à estatal aeroportuária. A mudança começou há dois anos e está sendo feita aos pouquinhos. Na sede da Infraero, a solução ainda é híbrida (isto é, utiliza ora a telefonia convencional, ora a virtual). Há dois anos, porém, a Infraero não adquire nenhum novo telefone tradicional – só IPs. “É raro uma empresa mudar de uma vez para a telefonia de internet”, conclui Quitério. “É mais fácil começar pelas pontas”, recomenda. Ou seja, ir trocando os aparelhos das filiais e, por último, a central telefônica da matriz.
As próprias fabricantes de equipamentos IP não recomendam que os usuários saiam correndo para mudar toda sua estrutura de telecom. Antes, cada organização deve estudar quais são os seus objetivos e necessidades, pesquisar as opções que o mercado oferece e escolher o que é melhor para o seu negócio. “Planeje, planeje e planeje”, recomenda Gisele Boni, gerente de soluções da Avaya, multinacional especializada em softwares e equipamentos de VoIP. O consultor da Gartner, Juan Fernandez, lembra que as empresas não devem se sentir pressionadas a adotar as novas tecnologias – o que geralmente acontece quando os concorrentes começam a implantá-la. Em vez disso, deve-se buscar o VoIP somente quando há convicção de que isso trará benefícios. “É importante fazer uma implementação muito bem estudada”, sugere Fernandez.

Intelbras, de Santa Catarina: plano é produzir aparelhos de telefonia IP ainda neste ano |
Desbravadores – O interesse pelas vantagens da telefonia virtual é maior em alguns segmentos. Quando começou, a paulista Ziva, por exemplo, dedicava-se exclusivamente ao setor público – que, segundo seu diretor de tecnologia, absorvia com mais facilidade a tecnologia. No final do ano passado, porém, entusiasmada com a demanda crescente, a empresa abriu uma nova divisão voltada para o mercado corporativo. “As instituições governamentais costumam ser mais receptivas às novas tecnologias, enquanto o mercado privado prefere adotar tecnologias já testadas. Mas agora a telefonia IP entrou numa curva crescente de aceitação”, explica Carlos Quitério. O curioso, conta ele, é que os serviços da Ziva têm feito mais sucesso entre as empresas médias, e não entre as grandes – que precisam de investimentos muito maiores para substituir seus sistemas telefônicos.
E é pensando no segmento das médias que a Zultys Technologies, empresa americana que fabrica aparelhos que integram voz, dados e vídeo, prepara-se para chegar ao Brasil. Os primeiros produtos da companhia foram lançados nos Estados Unidos, em 2003. As novidades tiveram uma aceitação rápida. Em pouco tempo, a Zultys resolveu se aventurar na Europa, na Ásia e, há seis meses, na América Latina. “O mercado brasileiro permanece inexplorado”, sustenta Cristiane de Almeida, gerente regional de negócios da Zultys. A empresa projeta que, ainda neste ano, deverá gerar no país entre 5% e 10% de seu faturamento global, que será de aproximadamente US$ 100 milhões.
Assim como a Zultys, a maioria das empresas que aposta no filão da telefonia IP tem metas agressivas de crescimento. O mercado é novo, e todas estão ávidas para conquistar uma posição de destaque. A Transit, uma operadora com foco no mercado corporativo, por exemplo, quer triplicar o faturamento e quadruplicar o número de clientes no país, em 2005 – apesar das previsões de que a economia brasileira terá um crescimento apenas razoável neste ano. “O mercado de VoIP vai ser o segundo boom das telecomunicações”, entusiasma-se Hélio Watanabe, gerente de produtos da Transit Telecom. Outra operadora que já entrou no ritmo supersônico do mercado de VoIP é a Primeira Escolha, que atua em São Paulo. A companhia nasceu no último trimestre de 2004, exclusivamente para explorar serviços telefônicos de voz sobre IP. Desde então, já arrebanhou nada menos que 5 mil assinantes residenciais e outros 150 corporativos. “Ainda somos pequenos, mas o crescimento está muito bom”, revela Mário Leonel, presidente da empresa. Por conta desse otimismo, a Primeira Escolha quer quintuplicar a receita em 2005. “O que é pequeno cresce rápido”, justifica Leonel.
Regulamentação: à margem da Anatel
Não existe nenhuma regulamentação para a telefonia IP. Por enquanto, a voz está recebendo o mesmo tratamento que as informações que trafegam normalmente pela internet. E ao que tudo indica as regras continuarão como estão. “A Anatel não regula tecnologia, regula os serviços de telefonia”, afirma Mário Leonel, da operadora paulista Primeira Escolha. Segundo ele, a uma tecnologia nova deve ser dada a oportunidade de crescer e, se necessário, fazer um ou outro ajuste nas leis que podem influir na sua utilização.
“Deus queira que a Anatel não se meta nesse assunto”, torce o jornalista Ethevaldo Siqueira, pesquisador do tema e autor do livro 2015: Como Viveremos, no qual prevê a popularização do VoIP. Para ele, a agência prejudicaria o mercado se tentasse controlá-lo ou impusesse algum tipo de restrição – para garantir a saúde das operadoras convencionais, por exemplo. “O México chegou a proibir a entrada de novas empresas no mercado de VoIP, mas elas entraram mesmo assim, clandestinamente”, relata Siqueira. Watanabe, da Transit, lembra que nos EUA não há regulamentação e que essa liberdade aumenta a competitividade das operadoras e, portanto, a qualidade do serviço. “Eu acho que não precisa regular”, opina o executivo.
Além das cifras – Quem pensa que a única vantagem da telefonia IP é o preço está enganado. Existem outras, como a mobilidade. O serviço permite que se utilize a mesma linha telefônica em qualquer lugar com acesso à internet. Se estiver viajando, por exemplo, o usuário precisa apenas conectar seu telefone à rede de computadores (hoje, a maioria dos hotéis oferece conexão) e pronto: está habilitado a fazer ligações para os seus colegas de trabalho normalmente, como se estivesse usando o ramal na empresa, sem custos. A GVT, única operadora “convencional” que comercializa serviços IP, disponibiliza uma alternativa extra para os assinantes: permite que as linhas virtuais sejam acessadas pelo seu próprio site. Para isso, basta que o assinante digite uma senha – e que tenha um laptop equipado com microfone. “Usar a internet para transmitir voz pode ser mais prático até do que usar celular, porque a rede segue o mesmo padrão no mundo inteiro e não há diferenças de tecnologia”, lembra Alcides Troller, diretor de marketing da GVT. Com sede no Paraná, a operadora começou a prestar serviços de telefonia IP para o consumidor doméstico em setembro do ano passado, depois de investir R$ 50 milhões em pesquisas. Prevê fechar 2006 com 100 mil clientes residenciais, além dos corporativos – que já somam hoje 2,6 mil.
Outro benefício do VoIP é a possibilidade de integrar as redes de transmissão de voz e de dados em uma só, o que resulta em economia na administração da TI das empresas. A união gera diversas vantagens. Em um call-center, por exemplo, o atendente pode receber chamadas pelo computador, utilizando um sistema integrado com o banco de dados dos clientes. Assim, ele vê automaticamente os relatórios disponíveis sobre quem está do outro lado da linha. Da mesma forma, o computador pode gerar chamadas sem que alguém precise digitar o número. “Para as ligações locais, ainda não existe uma redução de custo. Mas há vários outros tipos de ganho”, resume Cláudio Akira, diretor de tecnologia da Telsinc, especializada em serviços de integração de redes.
Ainda distante da dona de casa
Se no segmento corporativo a adesão à telefonia IP vai de vento em popa, no mercado residencial ela é mais lenta. A chegada da nova tecnologia ao cotidiano doméstico depende da penetração de banda larga, que é ainda muito pequena no Brasil. Segundo um estudo do Yankee Group, apenas 2,7% dos lares brasileiros possuem internet rápida. Nos EUA, esse percentual é de 26% e na Coréia do Sul, de 72,7%. Além disso, os usuários precisam ter um computador ou adquirir um telefone IP, que sai por R$ 400 em média. Também há a opção de instalar um adaptador no telefone convencional, mas mesmo esse recurso sai por aproximadamente R$ 200.
Nenhuma operadora, além da GVT, oferece telefonia IP aos consumidores residenciais. Em breve, no entanto, Embratel, Brasil Telecom e outras terão de entrar nesse mercado se não quiserem perdê-lo para as pequenas empresas que já estão tentando explorá-lo. “As operadoras estão estudando como oferecer esses serviços sem canibalizar as suas receitas”, explica Patrícia Volpi, do Yankee Group.
Em São Paulo, a Telefônica já aderiu ao VoIP – internamente, pelo menos. A empresa está conectando suas centrais com cabos de alta velocidade e, com isso, barateando as ligações para os seus assinantes, mesmo sem oferecer a transmissão IP comercialmente.
“As grandes concessionárias vão enfrentar uma concorrência nunca vista antes”, prevê o jornalista Ethevaldo Siqueira. Já existem hoje 16 operadoras com autorização da Anatel para prestar serviços de transmissão de voz pela web. “Muita coisa que a gente está prevendo para 2010 e 2015 vai chegar no ano que vem”, julga Siqueira. A única salvação das grandes seria a diversificação dos seus serviços. Para compensar a perda da receita das ligações de longa distância, elas poderiam oferecer voz, dados e vídeo em banda larga, além de interatividade e novos conteúdos. A briga vai ser acirrada.
Mesmo que a telefonia IP não exija o uso de computadores para funcionar, é com eles que se tira a máxima vantagem dessa tecnologia. Já foram criados diversos softwares que ajudam a maximizar as vantagens das ligações digitais. Esses programas são chamados softphones. Até agora, o exemplo mais famoso é o do Skype, que vendeu 100 milhões de licenças mundo afora desde que foi inventado, há um ano e meio. Com o Skype, os internautas podem conversar pelo tempo que bem entenderem com amigos de qualquer lugar do planeta – e pagando, no máximo, a mensalidade de seu provedor de banda larga. “Para maximizar o retorno do aparelho, é preciso usar as suas funções. Isso acontece quando cada telefone é um computador”, garante Akira, da Telsinc. A ligação telefônica através do computador também permite agregar aplicações de vídeo, para que as pessoas possam enxergar seu interlocutor durante a ligação. Os setores de TI das empresas podem, ainda, instalar aplicativos para monitorar o tráfego da rede e também para garantir a segurança dos dados e a qualidade da voz.
As pedras do caminho – Os especialistas são unânimes ao afirmar que a telefonia IP se tornará o novo padrão para as ligações fixas. Mas também lembram que, como toda tecnologia, irá demorar um pouco até oferecer confiabilidade aos usuários. “O mercado está começando”, constata Patrícia Volpi, gerente de telefonia fixa do Yankee Group, que pesquisa o setor de telecom. Uma das maiores preocupações do mercado é com a qualidade da voz. Afinal, ao contrário dos e-mails, a voz não pode demorar um minuto para chegar ao seu destino, e tampouco pode chegar em ordem alterada. Para resolver esse problema antes mesmo que aconteça, já foram desenvolvidos equipamentos e programas que gerenciam a capacidade de processamento das redes. Quando necessário, esses aplicativos restringem o espaço dos dados e liberam o tráfego de voz – o que proporciona maior estabilidade à transmissão.
Mesmo assim, ainda há outros riscos. Os computadores falham, as conexões com a internet caem e os hackers estão aí para invadir os sistemas alheios e ouvir as conversas. “Uma das tecnologias mais confiáveis que nós temos é a telefonia tradicional. A confiança precisa ser mantida com o IP”, declara Quitério, da Ziva. Para as empresas, as fornecedoras criaram as “redes privadas virtuais”, que garantem o trânsito sigiloso das informações. Quanto mais seguro for o sistema, porém, mais caro ele fica – e o preço é outra barreira para boa parte dos clientes. Para começar, algumas empresas acabaram de comprar seu PABX tradicional e não querem desperdiçar o investimento. Além disso, os aparelhos IP ainda são bem mais caros que os tradicionais. “Os preços também precisam cair”, defende Patrícia.